Domingo Sem Páscoa
Dessa vez, nem mesmo o chocolate salva. Pela primeira vez na vida, o nosso popular e mítico substituto do sexo não me seduz. Nem mesmo ele, cheio de encantos e de sensações orgiásticas, foi capaz de me atrair e, com seus poderes, secar as gotas salgadas que molham meus lábios.
Fatidicamente, hoje me veio a revelação. Não veio dos céus, nem em sonho. Foi real e concreta. Veio da boca, do olhar, dos gestos. Negativas misturadas aos desejos, às lembranças paradisíacas. É claro que ela já tinha surgido antes, suavemente. Mas uma confirmação dessa monta não é nada leve diante de uma simples mortal.
Enfim, a revelação do dia foi extremamente desesperadora. Não há como ficar no Paraíso. Simples assim. Direta e certeira no peito assim. Ele existiu somente por poucos instantes. Não pode tocar. Não pode sentir. Não pode provar. Mas estará para sempre me espreitando. Estará para sempre me tentando. Estará para sempre se amostrando, com seus dotes maravilhosos, com sua voz maravilhosa, cheiro, olhares e sorrisos, e com um jeito único de cativar.
Mas, apesar da chama estar viva e perceptível, pulsando dentro de nós, isso não nos é permitido. Pior, por nós mesmas.
Expulsas do Paraíso. Sem volta. Sem alegria. Impossível de aceitar essa realidade.
Mas, como para rir da desgraça alheia, ainda vem um daqueles por-do-sol de cinema, com direito a arco-íris, no meio da desigualdade e da preservação da natureza. Tudo isso, como se tivéssemos algo para celebrar, ao invés de algo para lamentar.
Termina assim, meu domingo sem páscoa. Termina assim, o grande amor da minha vida.

